sexta-feira, 29 de maio de 2009

Delicadeza à sua maneira (Ernesto Bacardi)

Se há tantas formas de te amar,
Não se espante se lhe despejo duas ou três.
Todas delicadas à sua maneira.
Quero-as. As que me cabem.
Por vezes sós, outras tantas nós.

Se os tantos firmamentos servem-nos
de chão ou vastidão da abóbada etérea,
Todos delicados à sua maneira,
Quero-os. Os que não oprimem.
Falo de nós, nunca dos tantos sóis.

Se as tantas quimeras formaram-se,
erigimos paixão ou entregamo-nos à lassidão.
Ainda que delicadas à sua maneira,
Querem-nos. As que não se esvaem.
Idéias-amatóis, depois paz em nós.

Se há tantas formas de amar,
Que me ame, que me ame, que me ame todas.
Todas delicadas à sua maneira.
Quero-nos. E que se derramem
Entre nós. Entrenós.

Se é ou não recíproca (Camilo Mendéz)

Se é ou não recíproca,
Minha paixão não deixa de luzir,
Assim, de forma inequívoca;
Assim, como eu quero, multívoca.

Gerar um ente aflito,
É o que se deve fazer da paixão,
Assim, num poema maldito;
Assim, como se abafa um grito.

Para que, mais tarde,
Livre, vá roçar pescoço a pescoço,
Assim, a ofegos e alardes;
Assim, de pronto e sem apartes.

E depois, uma lástima,
Caia exausta, trêmula e chorosa,
Assim, nossa cria pávida;
Assim, nosso terror orgástico.

Tempo de Sega (Ernesto Bacardi)

Meus olhos cansados às seis da manhã;
Olheiras cultivadas com a diligência
De um oleiro.
Falta contra mim sua boca foliã;
Sega-me, encerrada a ausência
Em um segredo.

Se, ao que transborda de mim,
Decretou-se não o fim,
Mas o degredo,
Há sempre uma promessa
De, inda com aquela pressa,
Ser um inteiro.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Planta de um universo (Benjamim Azoar)

por causa de Borges e Nicolau de Cusa

Assim como toda reta é o arco
de um círculo infinito,
todo homem é a sugestão
de um deus eterno

A questão é saber qual o lado de dentro
do círculo
e se o homem está do lado de dentro
desse deus

A geometria humana
– portanto a razão –
está contida
no infinito?
Quaisquer fantasias e afetos
– portanto o ininteligível e o complexo –
constituem
a eternidade?

Tempo e espaço sem fim
são as colunas que sustentam
dois labirintos paralelos
um acima do outro
face ante face
e invertidos
Entre eles,
o vão por onde corre o vento da mística humana

domingo, 24 de maio de 2009

Como no deserto (Benjamim Azoar)

Há dias em que penso que o dia é meu,
Mas não aniversario; não é o dia do meu santo.
Não há um santo dia, nem o dia santo.

Paro e noto que a minha volta emerge água.
A um isolado, não afaga nem o bruto sol.
De algum rio vem a mágoa. Deus, de aonde desagua tanto?

Um deus de cortesia seria o suficiente agora,
Mas, em meu resto de chão, nem enfeite cabe.
Ainda que parado, um fugente com dente de sabre.

Acocorado, observo qualquer ave em vôo
E exijo da ilha um herôo que me celebre:
Salve herói sem povo, sem trabalhos um novo Herácles.

Há dias em que penso que o dia é meu,
Mas não mo cederam; não é o dia que me cabe.
Não há quem sabe o dia, nem o dia sabe.

Um deus de cortesia seria o suficiente agora,
Mas me reverencio com meu aceite de santo
– Não beatificado, que mente, demente com manto.