domingo, 24 de maio de 2009

Como no deserto (Benjamim Azoar)

Há dias em que penso que o dia é meu,
Mas não aniversario; não é o dia do meu santo.
Não há um santo dia, nem o dia santo.

Paro e noto que a minha volta emerge água.
A um isolado, não afaga nem o bruto sol.
De algum rio vem a mágoa. Deus, de aonde desagua tanto?

Um deus de cortesia seria o suficiente agora,
Mas, em meu resto de chão, nem enfeite cabe.
Ainda que parado, um fugente com dente de sabre.

Acocorado, observo qualquer ave em vôo
E exijo da ilha um herôo que me celebre:
Salve herói sem povo, sem trabalhos um novo Herácles.

Há dias em que penso que o dia é meu,
Mas não mo cederam; não é o dia que me cabe.
Não há quem sabe o dia, nem o dia sabe.

Um deus de cortesia seria o suficiente agora,
Mas me reverencio com meu aceite de santo
– Não beatificado, que mente, demente com manto.

Um comentário:

adelaide amorim disse...

Jó não faria melhor. É muito bonito o poema, sombrio e bonito. Acho que é da cor dos tempos, mas isso passa.
PS: Tive que correr no dicionário pra ver o que é Herôo. Brigada pelo aprendizado.
PPS: Vou tirar uma cópia e mandar pro Carlito Azevedo, acho que ele vai gostar.

Beijins!