quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Post-scriptum pachola (Benjamim Azoar)

Dia desses em novembro


Querida M.,


que saudades que há tempos não sentia! Por quantos anos não nos vimos? Como vai a vida? Aliás, por falar em vida, aproveito logo para repassar-lhe a notícia: eu morri. Não se assuste. Foi há cerca de dois meses, mas estou bem. Não sei se foi um tiro ou um ônibus – de fato, não me interessa muito –, mas foi instantâneo e sem dores (se isso tem algum valor para você).

Sem essa de céu ou inferno, reencarnação ou vazio completo: tudo enganação, especulações que ouvimos a vida inteira. Isto aqui é por demais indiferente; não dista muito do mundo dos vivos, exceto pelos objetos mágicos e misticismos que aí existem. Moro na mesma casa – não tenho meus pais, obviamente; eles ficaram por aí mesmo – com meus avós e um irmão natimorto, a quem ainda não conseguiram dar um nome. As coisas aqui são dotadas de outra conotação: feitas de elementos mortos, mas que, por incrível que pareça, pulsam. Livros em latim; sinfonias perdidas por havê-las rasgado alguns gênios mais exaltados; quadros não pintados, apenas idealizados; peças por encenar que foram esquecidas nalguma gaveta. Não é possível produzir nada a partir daqui, existem somente as criações não aproveitadas ou já saturadas ou perdidas no mundo em que você está – inclusive, aquele poema que você escreveu para mim para desagravo e que está perdido há tanto tempo em algum lugar do seu desordenado escritório está agora em minhas mãos; encontrei-o no software de buscas (moderníssimo, vocês ainda vão inventá-lo) da biblioteca de Alexandria, que está aqui ao lado. É-nos permitido (ninguém conseguiu me dizer de onde vem essa regra) gerar uma única criatura, que chamamos ironicamente de efetiva obra póstuma. Escolhi escrever esta carta. Veja que tamanha consideração! O problema é enviar para você, a burocracia é grande. É a burocracia do antigos Estados comunistas. A filosofia é aquela que vocês já descartaram ou ainda não perceberam. É impossível fazer história aqui. Nós temos acesso aos pensamentos iminentes dos vivos (cuidado). Também temos um idioma próprio de expressões em desuso e dialetos passados.

O espaço físico altera-se o tempo todo. O velho sofá da minha sala muda de lugar sem porquê. O tempo é desvairado e vai do passado ao futuro sem passar pelo presente. Não existe “o” momento, “o” instante. As árvores, por vezes, como foi no nosso relacionamento, estão parte no outono, parte na primavera. Quase não há ventos leves, mas muitos furacões, todos os que já passaram por aí. O mesmo acontece com maremotos, terremotos e outros fenômenos. Entretanto, não há incômodo. O incômodo é de vocês.

Nosso amor é incondicional, transcendente, intransigente, impessoal, universal, “aneurótico”. Não é desse amor mundano e volúvel e inquisitivo de vocês. Odiamos da mesma maneira. A moral também é antiga, mas não menos bela. Não é a moral cristã, mas há aquela de Cristo, que eu, você e os papas renegamos há muito. A verdade, como as cores, é absurda, absoluta e primária. Não temos luar, no momento, por ele servir a vocês. Mas não apenas por isso, falta-nos também pela escassez de apaixonados. Temos um sol ainda em formação, meio avermelhado, que nunca foi alvo de uma ode sequer. Há uma coisa que cá existe e que não tem similar por aí: a felicidade. A satisfação total é nossa. E não há como existir pelo seu lado; um organismo vivo não suporta a felicidade em todo seu tamanho.

Como é mal utilizada a palavra mórbido, que traduz o estado do enfermo e correlaciona-se com a morte. Mórbido: só o pode ser o vivo; o útil; aquele que produz. Frequentemente, me vêm à cabeça alguns significantes sem significados: solidão, solidariedade, indivíduo, coletividade, um, mais. Não estou bem certo, mas parece-me que havia alguma relação entre estas noções. A terra suga de volta o corpo para se fertilizar e gerar novas esperanças; a terra cospe ao sidéreo as esperanças esgotadas e alivia-se do peso impotente e arrastado.

Depois de morto, passei a te vigiar: seus olhos são ainda mais bonitos de dentro pra fora. Pode ser que eu leia esta carta contigo. Não precisa olhar em volta, isto não significa que eu esteja nesse seu mundo. Em verdade, você também não está. Quem vai ler esta carta é a idealização de M. que eu trouxe comigo. Há sim um modo de chegar até os vivos: através da potência de morte que vocês negam para viver com menos imprecisão. Não lembre da mortalidade, mas das fragilidades. Nunca reparei, quando vivo, que essa sua deficiência visual fosse tão grande. Quantos graus têm seus óculos?

Estou chegando ao fim (da carta, ao outro já cheguei). Provavelmente, meu último contato com essa repartição de tantos anos. Quero apenas me despedir e deixar as boas-vindas a essa nossa inevitabilidade.


Beijos zumbis.

B.A.